Da: BBC Brasil
Uma análise publicada no jornal espanhol El País ontem (17) diz que os
protestos que vêm tomando as ruas das principais capitais brasileiras desde a
semana passada causam "perplexidade" dentro e fora do país e geram
várias perguntas - e poucas respostas - sobre as razões da situação.
"Por
enquanto, o que existe é um consenso de que o Brasil, invejado
internacionalmente até agora, vive uma espécie de esquizofrenia ou paradoxo que
ainda deve ser analisado ou explicado", afirma o artigo, intitulado
"Por que o Brasil e agora?".
O texto, assinado pelo correspondente
do jornal no Rio de Janeiro, Juan Arias, indaga por que agora surge um
movimento de protesto quando, ao longo dos últimos dez anos, o Brasil viveu
como que "anestesiado" por seu êxito compartilhado e aplaudido
mundialmente.
"O Brasil
está pior do que há dez anos?", pergunta o autor. "Não, está
melhor", responde ele, acrescentando que o país está mais rico,
tem menos pobres e testemunha o crescimento do seu número de milionários.
"É mais democrático e menos desigual", completa Arias.
O autor segue com
mais perguntas. "Por que saem às ruas para protestar contra a alta dos
preços dos transportes públicos jovens que normalmente não usam esses meios
porque já têm carros, algo impensável há dez anos?
"Por que
protestam estudantes de famílias que até pouco tempo não tinham sonhado em ver
seus filhos pisarem na universidade?"
Um Brasil melhor
O texto ainda
questiona por que o Brasil, "sempre orgulhoso do futebol, agora parece
estar contra o país sediar o Mundial". Na avaliação do
autor, a resposta para o paradoxo que hoje vive o Brasil talvez esteja ligada à
formação da chamada nova classe média; ao fato de que os pobres que passaram a
ter uma vida melhor estão conscientes de ter dado um salto qualitativo na
esfera do consumo e agora "querem mais".
"Querem, por
exemplo, serviços públicos de primeiro mundo; querem uma escola que, além de
acolhê-los, lhes ensine com qualidade, o que não existe; querem uma
universidade que não seja politizada, ideologizada ou burocrática. Querem que
ela seja moderna, viva, que os prepare para o trabalho futuro."
Ainda segundo o texto,
os brasileiros, "querem hospitais com dignidade, sem meses de espera, onde
sejam tratados como seres humanos".
"E querem,
sobretudo, o que ainda lhes falta politicamente: uma democracia mais madura, em
que a polícia não atue como na ditadura".
"Querem o
impossível? Não", afirma o texto, completando que, ao contrário dos
movimentos de 68, "que queriam mudar o mundo", os brasileiros
insatisfeitos com o que já alcançaram querem que os serviços públicos sejam
como os do primeiro mundo.
"Querem um
Brasil melhor. Nada mais."
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