A partir de hoje passo a publicar a coluna do jornalista Carlos Brickmann. Lá embaixo, no final, o leitor que não conhece, pode confrerir os predicados de tão destacado jornalista.
A grande metástase
Foi lindo: os blindados dos fuzileiros navais lideraram o ataque, a elite da tropa da PM invadiu a favela-símbolo da Vila Cruzeiro - aquela na qual só entrava quem os narcotraficantes deixavam - e no alto do morro foi fincada a bandeira preta do Bope, com a insígnia da caveira perfurada por um punhal, à frente de dois revólveres cruzados. Pelos fundos da favela, em trilhas de terra batida, subindo morros, uns 200 bandidos armados fugiam a pé, amontoados em carros, pendurados em motos, derrotados, buscando asilo em outra favela.
E daí? Daí, nada: os bandidos que fugiram sem ser presos reforçam os grupos armados que ocupam outras favelas, prontos para atirar em policiais, em soldados, em civis; prontos para continuar incendiando carros e ônibus e testar, a cada momento, a capacidade de resistência ao terror dos cidadãos cariocas. A UPP, palavra mágica que significa Unidade de Polícia Pacificadora, tem sua importância, pela ocupação de território; mas a preocupação de evitar o confronto, exceto quando os criminosos assim o decidem, fez com que os traficantes armados, em vez de presos e submetidos à lei, se espalhassem pela cidade, tornando ainda pior um tormento que já era quase impossível de suportar.
Os narcotraficantes, como o câncer, ou são contidos ou se espalham. A metástase é ainda mais perigosa que o foco original. Não há substituto para a vitória. E é bom nem divulgar muito essa história de bandeira: em 21 de abril de 2008 o Bope tomou a mesma Vila Cruzeiro, hasteou sua bandeira e depois foi embora.
Recordando
Foi na Vila Cruzeiro que o atacante Adriano se refugiou, depois de abandonar a Inter de Milão e dizer que não queria mais jogar futebol. Foi na Vila Cruzeiro que Madonna, devidamente autorizada pelos traficantes, visitou uma criança e pediu recursos (aqui!) para sua ONG beneficente. Foi na Vila Cruzeiro que o repórter Tim Lopes, da Rede Globo, foi torturado, assassinado e cremado por traficantes. E, acredite, é um belo lugar, com linda vista para a igreja da Penha.
Ação unida, enfim
Depois do sucesso da aliança da Marinha com a PM do Rio, o Governo Federal liberou 800 soldados para reforçar as tropas que enfrentam os narcotraficantes. Serão cedidos também dois helicópteros e dez blindados de transporte, além dos já entregues pela Marinha. Os soldados não devem entrar em combate, exceto se forem atacados; mas, como os fuzileiros navais, ajudarão a assegurar as comunicações, a garantir a retaguarda e a manejar o equipamento militar federal.
Perguntar é preciso
1 - A Rede Globo e a Rede Record acompanharam, com helicópteros, a fuga dos bandidos que ocupavam o morro de Vila Cruzeiro. E a Polícia, por que os deixou fugir? Se a TV foi capaz de encontrá-los, policiais treinados não o são?
2 - Ocupar território é importante, sem dúvida. Mas, se os bandidos não forem presos, continuarão violando a lei. Não vão se regenerar porque perderam uma batalha, não vão ficar bonzinhos porque tiveram de mudar de morro. São traficantes, assassinos, terroristas. Por que, apesar das várias favelas já ocupadas pela Polícia, o número de presos não chega a ser significativo?
3 - Um dos grandes traficantes do Rio, Marcinho VP, foi preso. Mas continuou tranquilamente dando ordens de dentro da cadeia. É interessante a história desse Marcinho VP: em certa ocasião, foi fortemente subsidiado por um milionário, que pretendia regenerá-lo, ou coisa parecida. Marcinho VP foi preso. O milionário ficou até chateado porque o incomodaram um pouco com essa história.
O início do terror
Até agora, ninguém foi capaz de explicar direito por que os bandidos partiram para o confronto direto com toda a sociedade, espancando gente, incendiando automóveis, lançando a semente do terror. Foi uma ação planejada, é óbvio; e os criminosos usam esse tipo de ataque para transmitir um recado. Qual é o recado, ou quais são os recados? Que é que aconteceu que a opinião pública desconhece?
Crônica da cidade assediada
No auge do enfrentamento entre a polícia e os bandidos, uma promoção comercial criou a maior confusão no Rio: a multinacional Procter&Gamble, proprietária, entre outras empresas, da Gillette, abandonou em dois pontos da cidade grandes arcas de madeira, simulando contêineres. Só que esqueceram de avisar as autoridades: 50 policiais isolaram as ruas próximas e o esquadrão antibombas abriu as duas caixas. Tudo terminou mais ou menos bem: a promoção, vinculada ao Avião do Faustão, foi abortada, a empresa contratada para colocar as caixas deve ser autuada por alarme falso e terá, no mínimo, de cobrir os custos da ação policial. Não se sabe se em outras cidades a promoção será retomada.
Um pouco de política
Bem pouquinho - mas é política como ela é, sem enfeites. Lembra do blocão que o PMDB queria fazer com partidos que apoiavam Dilma, tentando encostar o PT na parede? Pois é: agora o PMDB negocia com o outro lado, PSDB, PPS e DEM, com o mesmo objetivo. O PV, o PHS e o PMN também podem entrar no blocão - tudo pela nobre causa de ganhar melhores cargos na Mesa da Câmara.
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Carlos Brickmann - Jornalista, consultor de comunicação. Foi colunista, editor-chefe e editor responsável da Folha da Tarde; diretor de telejornalismo da Rede Bandeirantes (prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA, em 78 e 79, pelo Jornal da Bandeirantes e pelo programa de entrevistas Encontro com a Imprensa); repórter especial, editor de Economia, editor de Internacional da Folha de S.Paulo; secretário de Redação e editor da Revista Visão; repórter especial, editor de Internacional, de Política e de Nacional do Jornal da Tarde.
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