Silogismo, nos diz o dicionário,
é uma dedução pela qual duas premissas levam a uma terceira, ou a uma conclusão
lógica. Por exemplo: todo homem é mortal, eu sou homem, logo tchau.
O dicionário enumera vários tipos
de silogismos, mas não inclui o que se pode chamar de silogismo aético — ou a
dedução lógica que leva a uma conclusão imoral, ou pervertida. Exemplo: se não
fosse a influência da cultura negra a civilização ocidental seria muito mais
sem graça — para não falar em sem ritmo e sem colorido — do que é, logo foi bom
existirem a escravatura e a diáspora forçada de negros da África.
Outro exemplo, ainda pior: é
inimaginável a cultura americana sem a contribuição de intelectuais e artistas
judeus expulsos da Europa pelo fascismo, foram os nazistas que os expulsaram,
logo o fascismo não foi tão ruim assim.
(Ninguém faz esse tipo de dedução
a sério mas há algo de silogismo sujo na defesa que se ouve de governos fortes,
ou da ordem como a principal virtude de uma sociedade, mesmo com o sacrifício
de direitos e liberdades. Há um silogismo sujo à espreita sempre que se procura
justificar os excessos de um regime repressivo com supostas realizações do
regime, em repetidas tentativas de reescrever ou absolver o passado. Como no
Brasil.)
A diáspora africana nos deu o
samba, o jazz e todos os ritmos caribenhos, certo. O fascismo, o comunismo e
outros ismos persecutórios mandaram grandes cabeças e talentos para as
Américas. Basta lembrar o caso dos Estados Unidos, onde gente como Saul
Steinberg, Billy Wilder e Vladimir Nabokov, para citar poucos, não teria tido a
experiência do exílio e da realização artística no desterro se não tivesse que
fugir de Hitler, de Mussolini e dos bolcheviques.
Mas, em vez da racionalização
amoral de um silogismo sujo para conter esse paradoxo, deve-se pensar nele como
efeito colateral da grande desarrumação da História. A História é explosiva, as
explosões acabam com qualquer ideia de lógica ou simetria, logo vá entender.
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