Por: Elio Gaspari, de O Globo
A ventania reformadora dos meios de comunicação voltou ao
Brasil da pior e da melhor maneira. Cortaram-se vagas e poderão ser extintos títulos que
fizeram história. Esse é o aspecto fim do mundo. Há o outro, do mundo novo.
De sua casa
na Gávea, o jornalista Glenn Greenwald explodiu um dos grandes segredos do
governo americano jogando o companheiro Obama no fosso da falta de
credibilidade. Ele grampeia o mundo, inclusive seus cidadãos.
Nunca na história deste país notícia tão
importante saiu daqui, muito menos da Gávea. A imprensa americana tem dezenas
de repórteres especializados em segurança nacional. A maioria trabalha em Washington, com bons salários e
incríveis fontes.
Os mais
afortunados vão todo ano ao jantar dos correspondentes da Casa Branca, com
direito a tapete vermelho e a acompanhantes famosas. Pois foram batidos por um
repórter que, desde 2007, trabalha no Rio.
Depois de
passar pelo site Salon, Greenwald está no jornal inglês “The Guardian”. Seu
principal instrumento de trabalho é o computador.
Em 1969,
Daniel Ellsberg, um analista do Departamento de Defesa Americano,
desencantou-se com a política de seu governo no Vietnã e começou a copiar 47
volumes de um relatório secreto. Ralou meses dormindo pouco e gastou o
equivalente a US$ 20 mil. Ofereceu-os a dois senadores e nenhum deles quis se
meter na encrenca.
Cinco meses
depois, convenceu um repórter do “The New York Times” a entrar no caso. O
jornal levou mais três meses para digerir o material e, em junho de 1971,
surgiram os inesquecíveis Pentagon Papers.
Em 2009, o soldado Bradley Manning baixou
750 mil telegramas secretos do governo americano em CDs de canções
de Lady Gaga. Num só, em alguns minutos, caberiam cinco cópias dos Pentagon
Papers. Ele mandou o material para o site Wikileaks e deu no que deu.
Da Gávea,
Greenwald recebeu as informações mandadas por um técnico da National Security
Agency que trabalhava para a Booz Allen Hamilton. Sabia-se que a NSA inaugurará
em outubro uma central de dados no deserto de Utah com capacidade para
armazenar dez vezes tudo o que há na internet.
A denúncia
de que Obama grampeia o mundo veio de Edward Snowden. Ele tem 29 anos, vivia no
Havaí, foi para Hong Kong e de lá remeteu as informações. Valeu-se de Greenwald
porque respeita seu trabalho no “Guardian”, jornal centenário, com uma tiragem
de 200 mil exemplares e um site grátis.
Seu
prestígio vem da qualidade de seus repórteres e do discernimento de seus
editores. O que Greenwald fez foi buscar notícia e, graças à internet,
recebeu-a, na Gávea.
A internet
não ameaça o jornalismo. Pelo contrário, facilita-o, desde que o repórter saiba
o que deve procurar, faça-se respeitar por quem tem o que ele busca e haja nas
redações o entendimento de que notícia ajuda, não atrapalha a rotina de uma
edição.
As duas
maiores notícias do século (“A guerra acabou” e “Kennedy está morto”) foram
divulgadas contrariando as convenções jornalísticas.A rendição alemã
estava embargada e o repórter que a pôs no ar foi punido. A morte do presidente
foi anunciada sem que a informação fosse confirmada e, obviamente, foi
desautorizada pela Casa Branca.
Sacrossanta
internet, a notícia sai do Havaí, passa por Hong Kong e pousa na Gávea
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