Por: Márlon Reis
A Câmara dos Deputados acaba de aprovar, em prazo recorde, projeto de
lei (PL 4470) que inibe o acesso de novas legendas partidárias ao fundo
partidário e, com maior impacto, ao tempo de propaganda eleitoral no rádio e na
televisão.
O projeto, cuja constitucionalidade é posta em dúvida pelo
evidente casuísmo, mostra como o Congresso pode ser hábil na formação de
maiorias sempre que o tema envolve a preservação de privilégios. Essa
velocidade contrasta com a letargia do Parlamento na realização da inadiável
reforma política.
Mas essa medida adotada pela Câmara abre ensejo para um
importante debate, ainda não devidamente enfrentado: a liberdade de expressão
na rede mundial de computadores.
O número de usuários da internet no Brasil impressiona. Nosso país é o
terceiro no mundo nesse quesito. E ocupa a primeira colocação quando se
considera a quantidade de horas de acesso diário por internauta. Esses dados,
recentemente divulgados pelo Ibope, mostram o tamanho do potencial desperdiçado
pelos políticos no acesso à sociedade conectada.
Dois fatores inibem o fluxo do debate
político na internet: o preconceito e a inadequação dos marcos legais. De fato,
a comunidade política reluta em compreender a importância da abertura do
diálogo político nos sites, blogs e redes sociais. Há um temor de que essa
liberdade sirva para colocar em xeque práticas que hoje favorecem o alcance e a
permanência no poder. Calcada nesse preconceito, a legislação brasileira segue
contaminada por sérias limitações.
Confundindo internet com televisão e rádio, a
legislação impede que os usuários da web se manifestem publicamente sobre
eventuais candidaturas. E essa proibição se estende até aos líderes que
poderiam fazer uso desse meio para estreitar o vínculo com seus simpatizantes.
Ficou célebre o caso do político carioca multado pelo Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) após anunciar no
Twitter que acabava de ser convidado a integrar chapa que disputaria as
eleições presidenciais.
A rede é plural e descentralizada, e regras
como a suspensão de sites inteiros
que contenham material publicado por usuários não melhora o debate político, mas
o restringe. Da mesma forma, não faz sentido falarmos em direito de resposta na
rede, pois a própria arquitetura da internet já assegura esse direito a todos.
A liberdade de expressão deve ser assegurada com mais liberdade e não com menos
espaços para expressão. Tratar a internet como se trata rádio e TV é visão
equivocada e nada contemporânea.
É preciso reabrir a discussão sobre os marcos legais que
definem a amplitude do debate político na internet e ampliar tanto quanto
possível a voz do indivíduo na rede. Em lugar disso, temos testemunhado a
exclusiva dedicação dos parlamentares ao tema da regulação do uso das mídias
convencionais. É hora de captar o momento e rever a legislação restritiva que
limita e dificulta o debate político na rede mundial de computadores.
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Márlon Reis é juiz de direito e um dos
fundadores do movimento de combate à corrupção eleitoral que levou à aprovação
da Lei da Ficha Limpa, escreveu este texto em conjunto com Bruno Magrani,
mestre por Harvard e professor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-Rio. Publicado originalmente no site Congresso em Foco.

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