Infringentes são eles
No Português que falamos, todos esses
réus que tentam novos recursos no Supremo são infringentes: infringiram (do
latim infringere - descumpriram, violaram,
transgrediram, desrespeitaram, ensina o dicionário) a lei e por isso foram
condenados. Mas a discussão nem deveria ser essa: o Brasil perde longo tempo e
o Supremo dedica boa parte de seus esforços pela oportunidade de tirar uma foto
de condenados atrás das grades. Vale a pena o desgaste, a despesa, o esforço?
Este colunista sabe que está
contrariando boa parte da opinião pública, que quer ver os condenados morando
numa sólida masmorra, com chuveiro de água fria e banho de sol cronometrado.
Mas a pergunta é pertinente: que é que ganhamos encarcerando os mensaleiros? Os
crimes pelos quais foram condenados poderiam merecer outras penas que não as de
prisão. Não é necessário, nem útil, nem adequado confiná-los em celas. Não
precisam ser contidos; não oferecem risco físico a ninguém. Os condenados devem
sem dúvida ser punidos, mas com a proibição de exercer atividade política (e,
se desobedecerem a essa proibição, aí sim caberia o confinamento), com multas
(o órgão mais sensível do corpo humano é o bolso), com restrições diversas e
trabalho comunitário, de forma a não deixar tempo para que se dediquem ao que
for proibido. Ganham todos; inclusive nós, contribuintes, livres da pesada
conta da hospedagem.
E o exemplo? O exemplo é vê-los condenados, ponto.
Pedaços do corpo de Tiradentes foram expostos na rua, como exemplo. Foi
horrendo. E não deu certo.
Cumpra-se a lei
Este colunista sabe que a lei tem de ser cumprida,
que a lei é a base das penas que os ministros do Supremo aplicam, que a
alternativa que sugere só se tornaria possível com a mudança da lei. OK; então,
que os especialistas pensem nisso, e não apenas para gente chique, como os
mensaleiros.
Por que construir cadeias caríssimas, sempre em
número insuficiente, gastando dinheiro que faz falta em outras áreas, se é
possível punir sem cadeia quem não oferece risco físico?
Curiosidade
O livro é de Zuenir Ventura, pode ler que é ótimo.
Este, 1968 - o que
fizemos de nós, tem um atrativo extra: conta que em 1968 José
Dirceu e Celso de Mello moravam na mesma república estudantil em São Paulo. Um
se dedicou à política, outro ao Direito.
Agora se reencontram, um como condenado querendo
recorrer, outro como o juiz cujo voto decidirá se o recurso pode ser aceito.
Quem pode, pode
O caro leitor enfrenta problemas com seu celular?
O Governo eleito pelo caro leitor enfrenta problemas ao investigar crimes e ao
lidar com criminosos? Quem manda ser um cidadão respeitador das leis? Porque o
PCC, Primeiro Comando da Capital, cabeça do crime organizado em São Paulo,
determinou por celular, a partir de um presídio de segurança máxima, o
assassínio dos responsáveis pela morte do menino boliviano Brayan Yanarico
Capcha, de 5 anos.
Cinco eram os matadores; quatro já foram mortos.
Dois, nas ruas; dois, numa cadeia de Santo André, no ABC paulista. O quinto, um
adolescente internado na Fundação Casa, antiga Febem, vive sob escolta
permanente da PM, pois também está jurado de morte. E como é que criminosos
condenados e presos dão ordens, sabendo que as ordens serão cumpridas?
Excelente pergunta, caro leitor. Excelente
pergunta.
A onda que vai e vem
Sabe esse monte de irregularidades que acaba de
ser revelado no Ministério do Trabalho e na Fundação Banco do Brasil? Pois é: a
história de entregar dinheiro público a certas ONGs, organizações não
governamentais que vivem de recursos do Governo, vem de longe. Em 2001, PSDB no
poder, houve uma CPI das ONGs no Senado, para apurar safadezas iguaizinhas a
essas de agora; mas a CPI não andou, porque não interessava a alguns
parlamentares que têm parte no rolo, nem ao Governo, que usa as ONGs como
instrumento político. Em 2006 e 2007, PT no poder, a CPI das ONGs ressuscitou,
mas foi devidamente sepultada.
A senadora Ideli Salvati comandou a bancada
governista para esvaziá-la (valeu a pena: Ideli, que na época era uma política
regional, hoje chegou a ministra).
Nome estranho
Certas coisas, só no Brasil. Por exemplo, aqui
houve uma Organização Não Governamental lançada oficialmente no Palácio do
Governo de São Paulo, pelo governador Mário Covas, PSDB. Este colunista
comentou o estranho fato de uma organização não governamental surgir no Palácio
do Governo e mereceu críticas em boa parte do discurso de Covas.
A propósito, a ONG não funcionou.
Saúde quase perfeita
O então presidente Lula chegou a dizer que faltava
pouco para o sistema brasileiro de saúde atingir a perfeição. Era quase
perfeito - o único problema é o quase. A Rede Bandeirantes de Televisão, em
excelentes reportagens, mostrou que há falta de seringas descartáveis para
aplicar insulina nos postos de saúde do SUS. O Brasil tem 12 milhões de
diabéticos, boa parte dos quais precisa de insulina. Como não há seringas
suficientes para a população mais pobre, o Ministério da Saúde orienta a usar
até oito vezes a mesma seringa.
É arriscar o uso e rezar.
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